T2E1: Primeira Folha
- thiagopined
- 4 de jul.
- 17 min de leitura

PODCAST LUZ E SOMBRAS TEMPORADA 2: UM NOME SEM REFERÊNCIA
Músicas são sempre uma parte muito importante para minhas inspirações. Na minha vida como autor, algumas funcionaram como base no meu processo de criação de uma história, outras serviam como ponte para que eu continuasse a criar. Talvez eu possa até dizer que, para meu processo criativo aflorar, eu preciso muito de música.
No ano de 2016 eu publiquei um conto em uma antologia de nome “Aquele que se Foi”, que foi baseado quase que literalmente na música “The One That Got Away”, da Katy Perry. Desde seu lançamento, essa música me pega de um jeito estranho, com certa nostalgia de algo que eu não presenciei. E meu conto foi baseado na minha interpretação dela, mas; no lugar de tentar mostrar o meu ponto de vista, eu prefiro ler meu conto para vocês:
TEXTO DO CONTO "AQUELE QUE SE FOI" DE THIAGO PINED
Você já deve ter ouvido falar daquele que se foi — com certeza todos na sua rua comentavam.
Não se lembra?
Cabelos curtos castanhos, era um menino de mais ou menos uns 17 anos de idade, bem apessoado, com um sorriso bonito que todas as meninas gostavam de se aproximar dele, mas ele ficava apenas com uma menina. Isso! Ela mesmo! Aquela que ficou triste quando ele se foi.
Diziam que eles formariam um belo casal; os dois não paravam juntos! Era tão lindo ver os dois caminhando da escola juntos, conversando como um perfeito casal. Ela tinha cabelos longos, encaracolados, um sorriso encantados, grandes olhos castanho-claros que pareciam fazer com que qualquer pessoa lesse sua mente, o que ela estava pensando.
Com certeza você ja viu os dois rindo na padaria, comprando um sonho de creme, puxando assunto com a atendente que estaria emburrada até aquele momento, mas que abriu um longo sorriso quando viu os dois juntos.
Todos já ouviram falar daquele que se foi.
Mesmo estando junto com os melhores garotos da escola, ele era muito popular; falava com todos, brincava, não tinha preconceito com nenhum menino ou menina que era de alguma maneira descolado na escola.
Diziam que seu nome era Diogo Braga… Mas não era Antonio Prado? Alguns diziam que se chamava João Pedro — que todos chamavam ele de J.P. Que ele tinha diversos apelidos, mas que ninguém realmente sabia qual era o seu nome.
Ele era filho da viuva, não era? Alguns diziam que seus pais não saíam de casa, outros que eles nunca estiveram em casa: que ele era um menino órfão que ganhou a vida engraxando sapatos no Centro da Cidade, que juntou bastante dinheiro para abrir uma poupança no banco e assim ganhar mais e mais dinheiro, podendo viver como ele vivia naquela época. Ouviu-se dizer que ela era filho de algum embaixador, tinha um cartão de crédito só para ele vinculado a alguma conta com dinheiro infinito que o pai havia dado para ele não encher mais o saco enquanto ele estava com sua milésima namorada andando pelo caribe com outros políticos.
Algumas pessoas afirmavam que tinham o seguido até uma casa velha, caindo aos pedaços no córrego de um rio e visto sua família paupérrima juntos numa tarde de natal em um ano desses. Outras diziam que, ao sair da escola, ele entrava em um daqueles carros pretos caros de granfino e sumia pelas ruas (diziam que ele era levado para uma mansão ao sul da cidade, dentro de um daqueles condomínios chiques).
Ele foi aquele que se foi…
Todos o conheciam!
Todos o conhecem!
Não vai dizer que nunca ouviu falar daquele que se foi? Você soube! Você estava lá! Não lembra daquele menino que sempre estava perto, você sempre o via — com muita gente, com poucas pessoas, sozinho, acompanhado Da Menina — e de repente não o viu mais.
Todos afirmaram que ele teria um bom futuro. Diziam todos que el seria um médico bem sucedido, que entraria para uma Universidade pública em primeiro lugar, que depois seria diretor de algum hospital perto da sua casa, que seria um dos únicos que teria sem por cento de ajuda para toda a população por que ele se importava. “Ele foi meu aluno!” Iriam dizer as professoras. “Ele sempre se mostrou um menino do bem!”
Ele ganharia o prêmio nobel por achar a cura por alguma doença incurável por que ele podia; ele era o mais inteligente da classe e seria o homem mais inteligente de qualquer trabalho que ele entraria. Ele seria conhecido pelo mundo todo e ninguém nunca iria esquecer o nome dele. Os anos iriam se passar e todos ainda lembrariam daquele que era uma vez um menino genioso e um grande gênio mundial.
Até aquele dia, sabe? Aquele dia que todos falaram por muito e muito tempo, pois foi o dia em que o destino desse garoto mudou completamente.
Foi o dia em que aquele que se foi realmente se foi…”
Brincamos muito com a ideia de ir embora, desaparecer de uma vez por todas. Quando fazemos muita arte quando crianças e nossa mãe, cheia de ter que cuidar dos filhos, da casa, e ainda da vida amorosa, social e de suas próprias lutas internas, ela nos diz que vai sumir e nunca mais a teremos. Quando estamos atolados de trabalho que deveriam ser feitos pelo seu chefe, ou quando perdemos tantas coisas amorosa, financeira e socialmente, tudo que queremos é sumir. Não existir, nem que fosse por apenas uma hora.
Muitos de nós vai continuar dizendo e brincando com essa, se me permite dizer, pequena excitação de deixar tudo para trás e viver tudo do zero. Bem, Hollywood está repleto de histórias sobre isso; vai me dizer que passar pelo que a personagem do filme Garota Exemplar passou não é um bastante interessante? Mas e aqueles que vão às vias de fato, por assim dizer, que somem, do nada. Em um minuto estão ali conversando com o padeiro, e no outro não se tem vestígios? E eles?
E isso me incomodava ainda mais que tentar recriar uma ideia do que poderia ter acontecido com uma pessoa que sumiu, como meu conto que tenta alimentar uma partezinha dessa minha curiosidade. Histórias de pessoas desaparecidas estão em qualquer lugar, me aventuro a dizer que você, ouvinte, conhece pelo menos um caso de alguém que desapareceu próximo a você. Parecem poucas se olharmos de longe, espalhadas. Mas se juntarmos todos os casos, vemos que são muitos, um número alarmante principalmente para uma sociedade tão conectada como a nossa.
Quando me deparo com casos assim na internet, já começo a me perguntar: “mas o que houve? Do nada? Como uma pessoa pode sumir assim de repente?”, e muitas das vezes não temos resposta alguma. Zero. Como se ela e toda sua história fosse abduzida desse planeta. Sem deixar rastros. Acho que, no fim, nós conformamos e seguimos nossas vidas, não é? Vez ou outra relembramos o caso do primo de alguém que não se tem mais histórias, ficamos tristes, como se o luto voltasse, mas no dia seguinte o sol volta a nascer.
Infelizmente, eu não sou o tipo de pessoa que se conforma muito facilmente. E esse combustível continuou girando por um tempo. Eu tinha sim um caso de desaparecimento que seguia como uma ferida que não cicatrizava.
Há muito tempo, quando eu estava finalizando minha primeira graduação, um garoto desapareceu. Ele frequentava a mesma faculdade que eu, o mesmo curso, só estava uma turma depois da minha. Me lembro do burburinho que se apossou das redes sociais (naquela época se usava mais o Facebook) e conversas.
Mas o tempo foi passando e as pessoas se preocuparam em pensar em suas vidas que já são complexas o suficiente, e esse desaparecimento foi se esfriando e esquecido. Mas eu nunca me esqueci, e volta e meia eu procurava pela história, ainda sem resolução. O tempo foi passando até que, em um dia comum, tudo mudou completamente e que não passava de apenas dúvidas e pesquisas incansáveis na internet, tornou-se algo maior do que eu imaginava - felizmente.
Mas já, já você vai conhecer toda essa história. Por hora, quero primeiramente agradecer por estar ouvindo e te dizer bem-vindo à segunda temporada do podcast Luz & Sombra que se chama “O Arquivo Sem Referência”. Me chamo Thiago Pined e serei seu anfitrião por essa jornada.
O ano era 2015 e eu tentava de todas as formas sobreviver a minha primeira graduação. O mundo era completamente diferente dos dias de hoje, e eu ainda aprendia a me conhecer, e saber qual seria meu lugar no mundo.
Vendo tudo que se passou naquela época, me arrependo muito de coisas que não fiz, de como não agi, do que não aproveitei. Eu estava em uma faculdade pública, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um sonho para muitas pessoas.
Foi uma surpresa eu ter passado - principalmente para mim mesmo. Eu não imaginava de jeito nenhum que conseguiria entrar em uma faculdade pública, mesmo que todos soubessem que eu conseguiria, eu não acreditava em mim. Sempre fui aquele aluno na média que talvez não se esforçasse tanto quanto meus pais quisessem. Então, de modo geral, passar para uma faculdade pública foi uma grande conquista.
Eu fiz o curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação, relativamente novo na época - eu acho que fui a segunda ou terceira turma do campus do fundão. E não foi minha primeira escolha; no início do meu Ensino Médio eu queria cursar Cinema, depois no final mudei para jornalismo. Eu tinha 16, 17 anos e a pressão de ter que me tornar alguém depois do colégio não me fez pensar muito bem. Biblioteconomia foi minha segunda opção, pois precisava ter uma válvula de escape caso a primeira não desse certo. Lembro que descobri e fui pesquisar o curso quase na mesma hora que precisava escolher as duas opções ao me inscrever para o vestibular.
Mas eu gostei. O curso me dá bases até hoje para muito do que faço, os professores eram todos muito bons - um ou outro que normalmente não vamos com a cara. E os amigos que fiz me ajudaram muito a ter uma visão mais ampla do mundo. Infelizmente, naquela época existia um outro Thiago dentro de mim, aquele que não tinha coragem de aproveitar cem por cento de tudo que aquele novo mundo podia me proporcionar, e me arrependo de não ter me jogado completamente.
E foi em 2015 que nossa história se inicia, na verdade. A faculdade estava acabando para muitos, mas eu precisava concluir algumas coisas, portanto, era pouco o tempo que passávamos juntos no fundão. Nossa socialização fora da faculdade se dava principalmente pela Rede Social Facebook, que ainda estava em seus anos de ouro. E foi nela que me chamou a atenção uma postagem que meus amigos de faculdade compartilhavam sobre um colega de curso que estava desaparecido.
E isso me assustou. Sei que por dia muitas pessoas desaparecem, o que já é bem estranho para mim, mas o que me deixou ainda mais assustado era o fato de que eu conhecia ele, já estive com ele em grupos na faculdade. Era um sentimento estranho que me batia, algo que já me passou pela cabeça, mas sua intensidade foi maior do que eu imaginara, talvez por ter sido o desaparecimento de alguém que eu realmente conhecia.
O jovem em questão se chamava Álef. Me lembro de alguma vez em uma roda de conversas na faculdade alguém observar que ele estava na profissão correta, afinal, seu nome também pertencia a um sistema muito conhecido de gestão de bibliotecas, que era um dos mais utilizados em nosso meio. Com os compartilhamentos de postagens, descobri que seu nome completo era Álef Pita Gomes.
E quem havia criado o post era sua irmã Stephanie. Ela queria ajuda para encontrar o irmão, explicando todo o ocorrido: no dia 17 de junho daquele ano, Álef saiu de casa sem nada e nunca mais apareceu.
A postagem da irmã no Facebook teve um grande alcance que hoje diríamos que ela viralizou, então a história do desaparecimento de Álef conseguiu destaque suficiente para virar uma matéria do Jornal O Globo publicada no dia 15 de julho de 2015. Nela, temos um panorama das informações que nós tínhamos sobre o caso na época.
TRANSCRIÇÃO DA MATÉRIA DO JORNAL O GLOBO (ACESSE AQUI)
JOVEM DIAGNOSTICADO COM DEPRESSÃO SEVERA ESTÁ DESAPARECIDO HÁ QUASE UM MÊS NA BAIXADA
RIO — Internautas estão mobilizados para tentar encontrar um jovem de 21 anos, desaparecido desde o dia 17 de junho, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Álef Pita Gomes, que sofre de depressão severa, deixou a casa dos pais durante a madrugada, enquanto o casal dormia. A campanha já tem mais de 13 mil compartilhamentos no Facebook.
A irmã de Álef, Stephanie Pita Gomes, de 28 anos, relata que não é a primeira vez que o rapaz desaparece. Segundo ela, em janeiro, ele ficou sumido durante quatro dias até a família receber uma ligação de um policial de Nova Friburgo, na Região Serrana, dizendo que Álef havia sido encontrado em cima de uma árvore, sem roupas e chamando pela mãe.
— Decidimos procurar atendimento médico depois disso. Ele passou a tomar antidepressivos e antipsicóticos. Com o tratamento, começou a ficar mais calmo — contou.
Segundo a irmã, Álef saiu de casa sem documentos e sem celular, apenas com as chaves de casa. A família procurou a 54ª DP (Belford Roxo) para registrar o sumiço. Desde então, Stephanie diz que não para de procurar notícias sobre o irmão.
— Já rodei diversos hospitais e IML. Tive que fazer até reconhecimento de corpo. Foi muito dolorido. Mas acredito que ele esteja perdido em algum lugar — desabafou Stephanie, ressaltando que ele usava uma tipoia azul no braço, vestia camiseta e bermuda e calçava chinelos quando saiu de casa.
Vendo tudo agora, consigo perceber a distância tecnológica que nos separa desses mais de 10 anos no passado. Nossa rede social mais importante era o Facebook, o Instagram não era tão usado, e o TikTok mao sonhar em existir. O mundo ainda estava transicionando do manual para o eletrônico.
Ou seja, a comunicação ainda não era tão rápida quanto agora. Somado ao nosso dia a dia confusos - meus principalmente. Pois tanta coisa estava acontecendo comigo naquela época, que essa história foi ficando para trás. O tempo foi passando rápido, mas o desaparecimento de Álef continuou, seus familiares e amigos ainda procurando qualquer resposta que pudesse levá-los a sua localização.Não sei quando eu me deixei para lá e segui com a minha vida. Não me lembro quando tudo não passou de mera lembrança. Mas lembro-me de um dia, não sei se um, dois, ou três anos depois, me deparar pensando no garoto desaparecido e procurar por qualquer informação nova. Não imaginava que ficaria frustrado com minha pesquisa ao saber que tudo parecia como na época de seu desaparecimento. Me veio a sensação de que, de alguma forma, o tempo havia congelado naquele evento tempos atrás: não havia mais novidade, não havia nenhuma notícia que pudesse me mostrar que a procura pelo Álef continuava.E os anos seguiam daquela mesma forma: quando me vinha em mente aquele desaparecimento, me via pesquisando arduamente pela internet qualquer informação que me fizesse me sentir um pouco menos inconformado; esperava que alguém tivesse uma resposta sobre seu sumiço, mesmo que não fosse boa. Mas estava eu enganado: o tempo para essa história parecia continuar parado no mesmo ponto, no mesmo ano. E eu seguia com essa sensação estranha dentro de mim, de que aquilo não estava certo. Mas não sabia o que fazer também, como ajudar. Eu tinha um dossiê da história, sabia de muita informação, mas isso não era o suficiente. O que eu poderia fazer?
A Néia é minha grande amiga que conheci na minha graduação em Odontologia. Além de confiar minhas vontades à ela, também é uma pessoa que não tem muito medo de fazer as coisas, além de ser uma pessoa completamente externa a essa história. Fatores esses que me fizeram falar com ela sobre o meu desejo de querer saber mais sobre a história do Álef. E ela abraçou meu projeto por completo.
A pesquisa e os contatos estavam todos feitos, e me surpreendi com a vontade das pessoas em falar sobre o Álef; com certeza, sua história não merecia ter ficado congelada por tantos anos; estávamos no caminho certo.Em três dias já tínhamos contato com muita gente que se mostrou interessada em conversar sobre o caso, mas havia ainda alguns pontos que precisávamos fechar: por onde começar? E como entrar em contato com a família para falar sobre o meu objetivo?A irmã que estava mais presente nas buscas na época era de muito difícil acesso e não nos respondeu em nenhuma tentativa de contato. Conseguimos falar com a irmã mais nova, que disse não estar pronta para falar sobre. E eu entendo; deve ser muito doloroso falar sobre o assunto.E foi no meio dessa pesquisa que achamos um comentário feito há menos de três anos atrás em um dos pôsteres de “procura-se" publicado no Facebook que nos chamou a atenção. O comentário dizia o seguinte: “Nunca esquecerei de você meu amigo! A esperança de ver você de novo nunca desapareceu”. O que me deu mais um empurrão para seguir com a pesquisa dessa história, que já tinha força o suficiente para se tornar a segunda temporada do meu podcast, foi que eu conhecia o dono do comentário da época de faculdade. Então pedi que a Neia entrasse em contato com ele, que demonstrou muito interessado em nos ajudar a montar o quebra-cabeças desse caso.
E foi a partir dele que decidimos começar toda a pesquisa com pessoas; pois ele estava presente na época do desaparecimento do Álef, e podia dar mais informações relevantes. Pronto, já tínhamos um ponto de início.
Bem, as coisas não saíram como o esperado. Outubro de lugar a novembro de 2025 e tanto eu quanto a Néia tínhamos tanto a fazer no final da faculdade que a falta de tempo tomou conta de nossa vida, e os dias foram correndo, enquanto um evento tomou conta de outro, nos afastando do nosso objetivo.
Mas não. Tínhamos chegado muito longe, falado com muita gente, e reascendendo uma história na mente dessas pessoas. Não podíamos deixar isso pra lá, de jeito nenhum. Precisávamos honrar com nossa palavra e com a memória de Alef…
A primeira temporada desse podcast Luz & Sombra foi inteiramente construída com base em arquivos e informações coletadas na internet, ou seja, a produção foi feita apenas comigo e meu microfone em casa. Até consegui uma forma de ter acesso aos autos do processo na época, mas eu trabalha e fazia faculdade, então o tempo não me deixou ir além do que consegui. Mas acho que consegui apresentar uma boa história mesmo com as adversidades.
Já essa temporada já começou com conversas, o que era algo completamente novo para mim. Quer dizer, eu sabia que essa história não podia ficar presa a apenas pesquisa; eu precisava ir à frente e conseguir algo a mais. Tenho que dizer que a Neia me ajudou muito nisso, tenho certeza que sem ela eu não teria coragem de procurar pessoas para conversar. E foi por conta dela que naquela manhã de 7 de março eu estava indo em direção de Pedra de Guaratiba, há quase duas horas de onde eu morava.
Nesse dia, finalmente tínhamos combinado de conversar com o Marcelo, que eu esperava ter informações além das que eu já tinha lido na internet. Além disso, tinha em mente que, a partir de nossa conversa, eu teria um direcionamento com os próximos passos da minha pesquisa. E eu estava certo.
TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA COM MARCELO - 1
TP - Então, a gente vai seguir do começo. Ééé, você aceitou gravar, da importância. Eee primeiramente você fala quem você é, sua vida e depois a gentee, a gente segue e você fala sobre seu contato com o Alef.
M - Tá, show de bola. Bom, meu nome é Marcelo, tenho 37 anos, eu sou formado em Biblioteconomia e Gestão da Informação na UFRJ.
NARRADOR
Com Marcelo, foi minha primeira vez que estava fazendo aquele tipo de trabalho, e percebo o quão estranho seria aparecer uma pessoa do nada querendo gravar uma entrevista. Então eu escolhi primeiro fazer uma conversa leve com a pessoa sobre assuntos do caso e depois gravar uma entrevista mais direcionada.
TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA COM MARCELO - 2
M - É, estudei, me f... entrei em 2010, né? Conheci o Alef em 2011.1, por aí. Aí a gente conviveu como estudante, como amigo, trabalhamos junto eee convivemos nessa época de faculdade. Devia, na época, eu me formei com 26, devo ter conhecido ele com 23, 24 anos, por aí. Uhum. Aí a gente convivia no campus e pós estágio, a gente sempre se encontrava, tipo, que lá na.. a gente estagiava, Transpetro e ANP, são prédios diferentes, mas tinham o mesmo, mesma entrada, então tinha o mesmo centro de convívio, na época eu fumava cigarro também, aí eu sempre descia pra fumar um cigarrinho.
TP - Uhum...
M - Ele descia junto e a gente trocava essa ideia, lanchava, almoçava.
TP - Entendi ...
M - Tava sempre conversando, sempre trocando uma ideia ali. Mas foi muito de repente assim, e do dia pra noite ele só desapareceu. Entendeu? Era como a pessoa tá aqui, no outro dia não tá mais.
TP - Você recebeu essa notícia como?
M - Então já começou o pessoal a fazer busca na internet. Botar foto dele, falar que tava sumido, tal, pedindo pra aparecer. Aí, aí a família dele começou a fazer busca pela região da cidade, pelos lugares. E eu comecei a fazer também. Eu fiquei um tempo mesmo, onde a gente ia lá no Rio Branco, na Uruguaiana, onde eu passava eu tentava achar ele. Eu olhava pra, pras pessoas na rua, pros mendigos chegava perto pra ver, chegava mesmo, pra ver se era ele, se tava ali e nunca achava. E isso foi arrastando por quinze anos. É, foi quinze anos de busca mais ou menos, é o tempo que eu frequentei lá embaixo. Aí só parei mesmo porque começou a minha vida começou a desenvolver em Praia de Guaratiba, aí não pude mais descer tanto, porque senão acho que tava continuando até hoje a procurar.
TP - Entendi.
M - É, a, a partir do momento que ele sumiu, eu sei que houve uma, uma possibilidade de localidade dele em algum lugar que eu não me recordo.
TP - Mas, de lá pra cá, houve alguma esperança, alguma notícia de que ele poderia estar em algum lugar?
M - Não, segundo a irmã dele, o pessoal dizia algumas coisas na época, falava que ele tava aqui, tava ali, e mas nunca foi encontrado. Entendeu? O pessoal nunca encontrou ele. Teve esses dois lances aí, um surto que ele teve, que ele se jogou na frente de um ônibus, depois foi encontrado em cima de uma árvore, né. Mas só, entendeu? E nunca foi encontrado o corpo, nunca foi encontrado rastro, encontrado nada.
A conversa com Marcelo foi realmente muito proveitosa e me esclareceu muita coisa que havia me deixado intrigado em minhas pesquisas. Mas havia ainda muitas perguntas que eu teria que ir atrás das respostas para contar essa história da melhor forma.
Por exemplo, sobre a noite do seu desaparecimento, a relação de Alef com a família, seus surtos psicológicos. Sei que ele estava na casa da família quando saiu e nunca mais voltou, mas precisava entender melhor essa relação.
Bem, infelizmente, não consegui contato com a família. Uma irmã nos respondeu, mas disse que não estava preparada para contar a história de Alef. E eu entendo muito, afinal, já se passaram mais de dez anos e de repente vem uma pessoa do nada falando que quer fazer um podcast do caso é no mínimo estranho. Então, eu preferi aborrecê-la.
Por sorte, na época da primeira pesquisa, novembro do ano passado, conseguimos uma lista de pessoas que gostariam sim de falar sobre o Alef. Só que havia se passado quase seis meses do primeiro contato, será que eles vão querer conversar novamente?
Eu, ou melhor, a Néia teria que tentar. Eu tinha muitas dúvidas e teorias sobre o Alef. Queria saber sobre sua relação com a família, queria saber sobre os surtos, sobre sua vida além da faculdade e das notícias. Mas eu estava jogando uma moeda para o alto sem saber se ela vai realmente voltar a cair…
TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA COM YGOR
TP - Boa noite, tudo bem? Eu não tô te ouvindo, talvez, será que...
Y - Calma aí.
TP - Ah, agora...
Y - Tá me ouvindo agora?
TP - Tô, tô sim. Tudo bem? Como tão as coisas?
Y - Ah, tá. Eu só, eu tô, tô exausto. Exausto.
TP - Imagino.
Y - Cansado mesmo, mas tirando isso, tá indo.
TP - Tudo bem também, também cansado, bastante. Tá. Mas vai indo.
Y - Bom, não tem muito o que fazer, né? A gente tem que trabalhar.
TP - É verdade. Sim.
Y - Vamo lá, Thiago, a gente... eu não sei como a gente vai trabalhar. Oi, Naia, boa no... boa tarde, noite, tarde, noite.
TP - Vamos lá. Eu acho que é mais ou menos um, um pouquinho do que foi naquela outra conversa. Eu só dessa vez vou tá gravando, se tiver tudo bem. Ah. E a gente vai, eu, eu, é, baseado naquela conversa, eu dividi algumas coisas. Então a gente pode ir, ir por, pela, pelo que eu dividi mais ou menos.
Y - Pelos tópicos.
TP - É, exatamente.
Y - É, porque eu acho que fica até melhor pra você estruturar, né?
TP - Isso, exatamente. Aí qualquer coisa eu vou, eu vou apontando prum lado, vou pedindo mais informação, a gente faz o normal de sempre. Aí então, é, primeiro eu queria que você falasse quem você é, o que você faz, as suas informações todas...
Esse que está falando é o Ygor, minha segunda conversa sobre o caso do Alef, e quem me daria alguma informação antes de sua entrada na faculdade. E é o Ygor que me elucida muitas questões e ainda me deixa curioso com várias outras. E é por conta dessa conversa que consigo montar minha primeira linha do tempo, que ainda continha uma pecinha faltante.
E é sobre isso que falaremos no próximo episódio.
Eu sou Thiago Pined e você leu o episódio um: Primeira Folha da segunda temporada do podcast Luz & Sombra chamada O Arquivo Sem Referência.
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